01/04/12

Crônica nova

Hoje, domingo, sai minha crônica no Rio Etc.
Link direto aqui >>>>>>>>>>


Vai lá, dá uma força, comenta, compartilha, tuíta... Agradeço muito desde já!




Um beijo e um ótimo domingo a todos!

30/03/12

HEY, YOU




Há um outro mundo chamado THE WALL. 
Não é um projeto musical. É um ecossistema com governo e emoções próprias. Bandeiras próprias. Reações próprias.
Ontem, vesti minhas botas de combate cor-de-sangue e entrei em The Wall, como um soldado. Não consigo não me sentir um soldado quando escuto e vejo The Wall. É um grito de reaja!, reaja!, reaja!, em forma de música.

Metrô lotado até a Central do Brasil, há muito tempo você não esbarrava comigo. Já entrei muito em vagão lotado em horário de pico. Foi um sofrimento até pensar que tinha gente que vivia isso todo dia a vida inteira, e que essas pessoas nem podiam se dar ao luxo de ter um ataque de pânico. Aí relaxei, entendi que era isso aí. Ontem repeti a sensação. Fãs de Pink Floyd uniformizados se espremiam com trabalhadores do dia-a-dia. Cabelos compridos e cabelos com gomalina no mesmo vagão. Tentei tranquilizar o próximo, que não estava acostumado. Sei que dá pânico, mas ei, tamo junto. E ainda temos um trem pra pegar.
Central do Brasil 19h50 da noite, borbulhando. Mais fãs. Minhas botas de combate cor-de-sangue chamam atenção. Está um pouco quente, mas preciso usá-las. O trem especial rumo a The Wall contrasta com o trem comum azul turquesa que repousa ao lado. O trem especial tem ar condicionado, o outro não. Dá pra ver as janelas e bancos quebrados, a sujeira, cartazes rasgados. Deu uma tristeza. Foda. Uma voz microfonada diz, "Bem-vindos ao vagão especial para o show de Rogers Waters!". As pessoas vibram. Que merda. Próxima estação, Engenho de Dentro. 
A sensação de estar num vagão com centenas de fãs e trilhares de emoções e expectativas é sufocante. A preocupação com o horário é latente. Nós somos gado. Não dá pra dar um passo de um metro, a gente vai marchando, não que nem soldado, mas que nem condenado. Subindo a escada, descendo a rampa, entrando na fila. A fila. Pra isso servem as botas de combate. Não queira furar a minha frente, amigo. Eu sei que você tá tenso, eu também tô, mas aqui não, e não duvide. Fui atraída para um coroa grande e forte, que berrava com voz grossa, "Oi, você tá furando fila não né? Porque pra mim, quem fura é babaca. Ba-ba-ca!". Colei nas costas do coroa. E ninguém, mas ninguém, ousou entrar na nossa frente. 
Estamos dentro. Estamos dentro. Muros brancos cercam o palco. Estamos dentro de The Wall.

Não é a primeira vez que vejo Roger Waters no palco, mas é a primeira vez que vou ver a parede ruir. Não era nem nascida quando a idéia foi concebida. The Wall é mais velho que eu.
Então soam os primeiros acordes, e um avião vem por trás de nossas cabeças, e BUM
O que posso dizer de ver um filme-ópera-rock transformado em show ao vivo, potente? Use sua imaginação e faça uma lista de todos os adjetivos que houverem no seu cérebro. Foi exatamente isso aí.

Muita coisa acontece quando aos 13 anos você se identifica brutalmente com Another Brick In The Wall. Muita coisa. E tudo está relacionado a resistência. Meu pai tinha o vinil, que agora é meu, e eu cantava essa melodia pro meu coelho -- e acho que ele gostava. Essa foi a primeira música que aprendi a tocar na bateria, um pedido ao meu professor jazzista. Era o que eu escutava todo dia, no discman, a caminho da escola. Só essa música. Não conseguia muito ouvir o disco inteiro, confesso, porque era barulhenta demais. Gostava de punk e hardcore. Aqueles arranjos melancólicos eram difíceis. Ouvia muito de vez em quando, desenhando, escrevendo... Mas a caminho da escola, era só ela. A música fragmentada pelas lombadas do caminho, o cd pulava e pulava, e eu sabia tudo de cór. E quando eu ia pra escola, de preto, rasgada, levava isso as últimas consequências (e isso incluía, no mundo adolescente, escrever a letra no tênis). Até o momento crítico em que fui repetida de ano porque precisava "amaciar", e eles achavam que isso funcionaria. Mas eu era emancipada, e fui fazer dois supletivos. O do 2o e 3o ano. Fiz vestibular e passei em 50o lugar geral. Bom pra caralho. Entrei pro que eu achava que queria, de primeira, mas não sobrevivi dois anos ali porque we don't need no education... o resto é história.

Esse continua sendo meu mote, a diferença é que a educação se transferiu para O RESTO DO MUNDO. Voltei pra faculdade, agora estudo Psicologia a noite. Estudo mais um monte de coisas. É como se eu fizesse várias faculdades paralelas. Eu gosto. Preciso. Mas não vejo mais professores como inibidores de criatividade, castradores de pensamento. Também não quero destruí-los, não quero procurar erros em seus métodos e jogar isso na cara deles (eu fazia isso, e já me fodi muito, muito mesmo). Acho que fui agressiva demais no colégio, não quero repetir isso. Quero usar a faculdade a meu favor. Quero me educar sim, para poder fazer o que fiz ontem. 

Eles nos deseducam a achar que não temos voz ou poder. Mas temos, especialmente quando gritamos juntos. No meio daquele estádio imenso, música alta, palco tingido de vermelho, eu absorta pelo espetáculo, escuto do meu namorado-marido que cinco seguranças, de terno e gravata, estão há 10 minutos falando alguma coisa com um garoto que fumava maconha. Achei estranho. Nenhuma repreensão dura 10 minutos. Podiam estar sendo extorquidos, ou humilhados. Percebi que todos a minha volta olhavam apreensivos. Olhei pro porco inflável que começava a voar pelo palco e comecei a gritar, no melhor estilo kamikaze, em direção aos seguranças, que estavam a menos de dois metros de mim, "PORCOS FARDADOS! PORCOS FARDADOS! FORA, PORCOS FARDADOS!". Eles começaram a olhar, não acreditando. Que nem uma louca, gritei e bati palmas. Os caras do lado começaram a fazer coro. As pessoas começaram a se empolgar. Em poucos segundos, uma galera começou a gritar e a mandar os seguranças darem o fora. A maioria homens, gritando grosso. Os engravatados, diante da pressão popular, saíram de fininho, em fila indiana. A multidão vibrou, o garoto e a namorada agradeceram muito. 
Consegui uma carona pra ir embora e acabei dando meus bilhetes de metrô e trem pra eles.

Isso agora é o que eu faço com o que titio Waters me ensinou em The Wall. Kamikaze como um piloto que dirige um avião e o choca contra um muro segregador. Prazer em ser kamikaze. Prazer em usar o sistema contra ele próprio, porque ele fabrica provas contra si mesmo o tempo inteiro. Prazer de ser inteligente e reconhecer o que há de bom e lutar contra o que há de ruim. Prazer de saber que não devo nada.
Isso é The Wall.



Hey You (Pink Floyd)

Hey you
Out there in the cold
Getting lonely, getting old
Can you feel me?
Hey you
Standing in the aisle
With itchy feet and fading smile
Can you feel me?
Hey you
Don't help them to bury the light
Don't give in, without a fight
Hey you
Out there on your own
Sitting naked by the phone
Would you touch me?
Hey you
With your ear against the wall
Waiting for someone to call out
Would you touch me?
Hey you
Would you help me to carry the stone?
Open your heart, I'm coming home
But it was only, fantasy
The wall was too high, as you can see
No matter how he tried, he could not break free
And the worms ate into his brain
Hey you
Out there on the road
Always doing what you're told
Can you help me?
Hey you
Out there beyond the wall
Breaking bottles in the hall
Can you help me?
Hey you
Don't tell me there's no hope at all
Together we stand, divided we fall

15/03/12

Imagem do dia

Decidi que vou postar todos os dias.
Quando não um texto, uma imagem.
Começando... agora!



Créditos: Fab Ciraolo 
http://fabianciraolo.blogspot.com/

12/03/12

Coisas que a gente não escreve na agenda

Perdi minha agenda.
Já procurei em todo lugar, e nem tem tanto lugar pra procurar. Depois de três voltas, constato que a perdi, pois não está nos lugares estabelecidos como possíveis. Impossível encontrá-la. A boca recém-operada pede dramaticamente preu não me abaixar mais uma vez, e parar de andar, senão eu vou inchar inchar inchar, e sangrar... por favor, pare. Então eu paro e sento. Ligo uma música, vou para o computador e fico pensando em tudo que está escrito nesse dia de segunda-feira que eu não vou fazer pois não achei a agenda. Faz parte da filosofia de viver um dia de cada vez -- eu nunca folheio a agenda pra saber o que há no dia seguinte. Nunca. Acordo cedinho, aí sim abro e vejo, ah! dentista!, assim não sofro por antecipação. A única coisa que sei que tem pra hoje é o primeiro dia de aula. Mais um primeiro dia de aula, pra quem achou que tinha acabado.
Não é de hoje que sofro por não ter completado a faculdade, então porque não? O momento pareceu propício. A vida desacelerou -- não andou pra trás, mas diminuiu marcha. Alguns vestibulares ainda rolavam, de repente eu faço e vejo no que dá, praquele curso lá que eu queria fazer mas não fiz na época e tem tudo a ver comigo. Me inscrevi, dois dias antes da cirurgia prestei o novo vestibular e dois dias após a cirurgia descobri que passei, mas que só abriram 3 vagas e, bem, corra.
Fui lá, cara inchada, desencavei o diploma, o histórico, e em poucos minutos estava matriculada no curso de Psicologia. Sim, senhores, sou a mais nova aluna de Psicologia e hoje é minha primeira aula.
Isso me faz refletir sobre o fato de todos os malucos analisados acabarem cursando Psicologia. Vai todo mundo parar lá. No meu caso, há dupla ambição: primeiro, angariar material de psiquê humana pra escrever; segundo, respaldo acadêmico pra atuar na área de terapias holísticas, um estudo já em andamento.
Pareceu plausível, racional e nem um pouco emocional, por isso acredito na decisão. Não vou pesá-la com expectativas de agenda, vou deixar o dia seguinte pro dia seguinte. Vou ser leve como a Estrela. Não consigo acessar a matrícula pra ver as aulas de hoje, mas tudo bem, chego lá mais cedo e resolvo isso. Quem sabe me acostumo um pouco com a sala de aula, assim ninguém verá o pavor diante dos meus olhos quando aquela porta se fechar. Tenho fobia acadêmica. Mas, ela há de passar, e minha nova auto-terapia inclui fazer tudo que dá pavor. Uma das coisas foi arrancar logo de uma vez os dois sisos que faltavam e que tanto me davam medo e problemas e dores de cabeça.

Eu preciso de símbolos pra funcionar, como se minha mente fosse uma engrenagem sombria daqueles jogos de RPG onde o personagem meio-homem-meio-animal precisa fazer brilhar o símbolo correto em cada parte para ela começar a girar. Eu precisava de um símbolo, um amuleto, que fizesse a roda continuar girando, pois ela estava meio parada (ou paralisada, de medo). Então marquei de arrancar os dois sisos, e o fiz, após 10 anos fugindo. Confiar um problema ao futuro é no mínimo perigoso, pois o futuro é agora e daqui a 3 segundos, e você será impiedosamente esmagado pelo que está empurrando até que decida acabar com aquilo de uma vez.

Vou entregar esses dois fósseis a alguém que possa transformá-los num colar. Serão meu amuleto, o amuleto da excisão, da remoção, da superação. Sombrio, como minha própria engrenagem interna.



05/03/12

Não desista.

Segunda-feira, 12:19, mesa de jantar.

É tudo que resta, a única superfície. Meu escritóriozinho, de estante de madeira vermelha e cristais e pedras energizantes, está coberto de plástico negro. Na parede, um buraco. Ligaram pra cá reclamando com sotaque francês dizendo que havia uma infiltração e a culpa era nossa, o apartamento de cima. Soou como xingamento. Xingaram a minha mãe. Você tá dizendo que tá vazando coisa no meu apartamento? Do meu escritório? Não tem nem água lá, nem pia, nem privada. Brigo sozinha em casa. Como podem dizer isso? Sacanas! Canalhas!
O surto foi em vão, o bombeiro constatou que sim, passa um cano maldito na parede do meu escritóriozinho. Tem que quebrar, ele disse. Não deu previsão de tempo pra curar o pinga-pinga. E como todo serviço do gênero, a todo tempo que se dá pode-se esperar o dobro.
Era pra ser 1 semana, faz um mês, e eu fui adoecendo um pouco. Sem espaço. Meditar no quarto não dá, porque é a energia de duas pessoas ali, e o momento é único, pessoal, solo. A outra escrivaninha não dá, é a mesa dele, com as coisas dele, o computador não cabe direito e eu não quero tirar nada do lugar nem influenciar o espaço. Não consigo escrever no chão, dói a coluna. Se o fizer na cozinha, não consigo parar de comer. Não vou levar o computador pra rua. A mesinha da varanda está lotada de plantas num belo arranjo que eu mesma arrumei esse fim-de-semana.
Não tenho lugar. Parece desculpa, mas não é.

Tô descobrindo que muito do que parece desculpa na verdade não é.

Ser escritor é o sinônimo leve da loucura. Em alguns momentos, me descabelo. Murakami já alertou que se você deixa qualquer pendência, não consegue se concentrar para escrever. A literatura me obrigou a refazer o encaixe das coisas, me obrigou o exercício físico e o dentista regular -- sim, de volta ao aparelho fixo, porque o silêncio me faz sentir os dentes se moverem na boca. Esse é o nível. Dá pra escutar o fio de cabelo e o pêlo da axila crescendo. A literatura é um tipo de yoga. Nós também somos monges.

É tanta coisa que a literatura obriga. Pra mim, é assim; um rearranjamento de vida. É assustador ver onde ela me levou, e tudo que tive de mudar para abrigá-la, recebê-la. Sinto aquele intenso olha do outro que não consegue lidar com a falta de objetos concretos. Os próximos dois anos da minha vida serão de puro açoite. Busco a reza alheia pra me consolar, e encontrei uma frase de Andre Dubus que vou colar na parede do meu escritóriozinho, assim que houver novamente uma parede:


"Não desista. É muito fácil desistir nos primeiros dez anos. Ninguém liga se você está escrevendo ou não, e é muito difícil escrever quando ninguém liga para uma situação ou a outra. Você não será demitido se não escrever, e na maior parte do tempo não será recompensado se o fizer.
Mas não desista."

02/03/12

O tempo, a esfinge

Tem 20 dias que não posto, que vergonha.
Impressionante como o estilo de vida é que conta o tempo. Ano passado eu conhecia cada segundo de cada minuto, sentia a hora; estava incrustado na pele, assim quanto-tempo-passou e quanto-tempo-tem. Agora que meu tempo é escrever e ler e estudar, a medida é diferente. A palavra tem outro tempo, e o que acho que são 10 na verdade são 16 ou 17. Não sou mais mulher de horas cravadas, mas de vírgulas, um número que sobra aqui e ali, que não chega a atrapalhar mas as vezes confunde, e as vezes eu levanto correndo porque falta meia hora prum compromisso, e eu não vi o tempo passar, ou melhor, vi, só que vi diferente, com a marcação das letras.
A marcação das letras é muito diferente de qualquer outra coisa. Em uma hora a gente cria uma vida. Eu fico olhando o buraco de céu da varanda e pelo azul, tento adivinhar. Mas o sol acaba virando cenário, e a vida nas varandas do prédio da frente inspira, e lá vai a personagem do meu livro por outra esquina, e eu nem sei mais que horas tem.

Também descobri, nesse tempo, quando brota meu lado ascendente pisciano. O que eu achava que era do turrão capricórnio, na verdade é peixes, que sempre pensei sereno, mas caí em mim. Onde já se viu Netuno, ou Posêidon, ser calmo & carinhoso? O peixe é nervoso, muito nervoso, ainda mais dentro do aquário. Do aquário já me livrei, mas talvez tenha mudado apenas prum tanque maior. As vezes encosto nas paredes e começo a me debater. Não que nem cabra, mas que nem peixe.


Atualmente escrevo pra três lugares.
Pra mim (meu livro).
Pra uma revista digital (ainda em negociação).
Pro site RioEtc, onde participei de uma eleição que não ganhei, mas ganhei uma coluna, o que é muito muito muito mais incrível. Ou seja, ganhei.

Todos os domingos, publicarei na seção "Crônicas Cariocas", que já existia, mas não tinha periodicidade. Basicamente, escrevo sobre a cidade, a minha cidade, Rio de Janeiro. A cidade que é a folha em branco das minhas histórias, das minhas vivências e sobrevivências. Minha coluna tem endereço imutável. Quero convidar a todos aqui do blog a acompanharem, pois é feita com carinho e publicada com mais carinho ainda.

Se eu faltar por aqui, tô lá.
Não por falta de palavras, mas talvez por falta de noção de tempo. 

10/02/12

Hoje é dia de Mãe Menininha!

10 de fevereiro é aniversário de Mãe Menininha do Gantois, mesmo pra quem vive de fora do Candomblé e das tradições africanas no Brasil. Presente em muitas músicas, de Caymmi a Bethânia e axé, o ateu pode desprezar a questão religiosa e ainda reverenciar o ícone antropológico -- a mulher que brigou com o Estado e conseguiu muitas liberdades ao culto dos Orixás, que como tudo, era proibido.
Vale a pena assistir a esse documentário para entender melhor essa figura tão importante da ligação África-Brasil e que infelizmente fica de fora dos nossos livros do colégio.

Documentário "Bahia Mãe Menininha" 

Parte I

 Parte II

09/02/12

Sobre os oráculos





É o que venho fazendo nos últimos dias. Muito.
O tarot é surpreendente, absolutamente surpreendente. Um oráculo realmente divino.
Iniciante que sou, tirando joguinhos de cinco cartas pros mais chegados, tenho visto coisas impressionantes. Muitas vezes leio as lâminas me contorcendo de dúvidas, e estou vendo a coisa acontecer na prática. Isso tem me levado a reflexão do quão sério é esse tipo de manipulação. Manipular oráculos é como operar alguém; meio vacilo pode corromper um corpo, e pior, uma mente, em dois palitos. Me assusta também como essas práticas tem sido "comercializadas", o quanto tem de gente por aí fazendo reiki, tirando carta pros outros se nomeando tarólogo, fazendo fogo sagrado, batendo tambor pra invocar animal de poder xamânico... Até mesmo na Bahia tive que me desvencilhar de "ciganas" que agarravam minha mão pra dar uma benção. Algo que aprendi, e que passo pra frente, é que com esse tipo de coisa deve-se ter muito cuidado. Jamais entre num local que não conhece ou deixe alguém tocar no seu corpo e interferir na sua energia. Jamais invoque um espírito se não tiver conhecimento pra isso, ou entender por qual linha espiritual você segue -- ou aguenta. Jamais comece por um tarot de Crowley.
Com a responsabilidade de oraculador e emissor de energia, há um ônus também. Mexer com a energia de outra pessoa é muito perigoso para ambos, emissor e receptor. Eu pago pelos caminhos errados que tomo com o tarot, e preciso de um arsenal para proteger meu corpo e espírito a cada carta que tiro. Não é nada fácil... mas para alguns, isso é imposto, como está sendo comigo. A pessoa é para o que nasce e em algum momento, isso lhe será imposto. É preciso saber ouvir.
Uma atenção redobrada para Netuno, que regressa a seu signo natal, Peixes. Com isso, todas as questões espirituais estarão mais em voga, assim como o delírio em relação a eles. Veremos proliferar todo tipo de terapia energética, mas isso não sairá impune. Como eu disse, há um preço a se pagar, e ninguém está preparado. Por isso muito cuidado com os oráculos, muito cuidado.
Nós ainda somos o grande mago de nós mesmos.

05/02/12

Moral da história

Trabalhar com a escrita aflorou muito meu lado social. Presto um tipo de atenção diferente, totalmente contemplativa e sem julgamento. Observo as ações como uma médica de autópsia, separo os tecidos, gosto de imaginar o que está embaixo de cada coisa, as razões, as deficiências, as qualidades... Infelizmente, isso ainda não me fez mais tolerante a situações de caráter duvidoso ou arrogância. Ainda não tenho muita capacidade emocional para tratar com frieza quando alguém me deseja mal. Sempre me pergunto se a pessoa percebe que está desejando o mal ou é inconsciente. Não faço idéia, mas pra tentar me acalmar e sentir menos mal nesse tipo de situação, relembro a história que uma amiga me contou num carnaval de anos atrás, numa cidadezinha de Minas Gerais, onde eu estava com os sentimentos fodidos e confusos. O deslocamento valeu a pena, entre outras coisas, por essa história contada no quarto abafado que a gente dividia. É sobre a Marquesa de Araxá, a famosa Dona Beija, que virou até uma novela da Globo com a Maitê Proença.

A Marquesa de Araxá tem uma história triste. Sempre foi uma mulher muito bonita, talvez pelo cabelo claro e olhos mais claros ainda que não eram comuns em sua época. Ainda menina, foi levada por um homem rico e importante da corte e mantida em cárcere como sua amante. Quando conseguiu fugir, retornou a cidade de Araxá, mas foi marginalizada pela sociedade. Já causava inveja nas mulheres por sua beleza, que viram o seqüestro de maneira inversa, como se fosse ela a culpada de seduzir um homem mais velho e viver com ele de forma profana. A Marquesa rebelou-se e fez a escolha de vida de não se envolver institucionalmente com homem algum, pelo contrário; seria uma amante livre -- dizem as más línguas que tornou-se de fato prostituta, profissão que a fez enriquecer.
Um dia, deu em sua casa uma grande festa, e convidou todos os habitantes de Araxá. Os homens da cidade compareceram, mas a grande maioria das mulheres não. No meio da festa, um lacaio trouxe uma caixa, um presente, enviado pelas mulheres ausentes. A Marquesa abriu o presente, em meio aos muitos convidados, e o choque foi geral: a caixa estava cheia de bosta de cavalo, uma atitude pensada para denegri-la e feri-la em sua própria casa.
No dia seguinte, a Marquesa mandou entregar também uma caixa à casa da mulher que havia enviado o lacaio. Dizem inclusive que as mulheres da cidade estavam ali reunidas para rir do escândalo que haviam feito. Quando o mesmo lacaio entrou no salão carregando a caixa e a entregou a patroa, esta abriu. Era um maravilhoso buquê de flores, colhidas especialmente. Junto, um bilhete, de punho da própria Marquesa, que dizia: "A gente dá o que tem".

21/01/12

O efeito da mulher mula

Das coisas impressionantes é a capacidade de sustentar o que se tem plena noção de que não é bom. Por ser homem, ainda que em genitália e mente eu seja o oposto, mas é assim que decidiram chamar-nos todos e por isso prossigo, acredito que só nós homens temos essa faculdade, e não ouso botar palavras na boca de um ser que não se defende na língua latina. Creio eu que só mesmo gente -- e no caso, a gente -- consegue permanecer numa decisão ruim. 
No documentário "Jogo de Cena", de Eduardo Coutinho, uma das últimas entrevistas é a de uma menina de olhos meio puxados. Ela conta que, com 11 anos, parou de falar com o pai após uma briga, que culminou num infarto. Misturada de medo e raiva do pai, mesmo morando na mesma casa, a menina não lhe dirigiu mais a palavra. Ele não entendeu, e tentou romper o silêncio dela -- há um momento emocionante em que ela fala do choro dele, que só viu essa única vez. Depois de um tempo, "desistiu de mim", e conviveram cerca de cinco anos sem se falar. Até o dia em que o pai, como todos os pais e todos os homens e plantas e animais, desencarnou. Coutinho pergunta, com a voz rouquíssima, "Mas você não se arrependia? Não tinha vontade de voltar atrás, falar com ele?", ao passo que ela respondeu, e eu a entendo de todo o coração, "Eu sabia que fazia algo ruim, mas simplesmente não conseguia mais falar com ele depois de um certo ponto". 
Muitas vezes me vejo nessa mesma ação, fazendo ou persistindo em algo que sei que não é bom, e não é porque acredito que aquilo compensará, ou que o caminho é dolorido para a redenção final -- eu simplesmente sei que não há, em qualquer momento, qualquer honra naquilo, e que estou trabalhando com as ferramentas do tédio e da temperança, e que nada sairá daquelas cânforas que jamais vertem água. E mesmo tendo noção de tudo isso, prosseguimos. Muitas vezes, quando devemos ser fortes como elefantes, e prosseguir de fato, heróicamente, empacamos como mulas. Porque oscilamos entre o elefante e a mula, e porque contemos elefante e mula, mas nos falta o discernimento da transformação?
Me identifico mais com a mula no momento. Uma mula empacada, é o que sou. E todos me pedem pra ter calma, até mesmo as cartas. A única coisa que corre no momento é o oráculo, de resto, tudo é espera, tudo é tempo, tudo é mula empacada. Só posso fazer sentar e esperar, vendo o céu mudar de cor, viver com a sensação de que há uma decisão a ser tomada mas que não há, ainda, voz de comando. 

Hoje a tarde, quando fui ao mercado na cidade baixa, encontrei uma baiana que faz máscaras e guias de orixás, que já conheço de outras temporadas. Ela me deu uma pulseira de Iansã, que estou usando até agora. Mula empacada adornada, pra lembrar que quando parar de ser mula, é mulher.

O enfeite da mulher mula

Das coisas impressionantes é a capacidade de sustentar o que se tem plena noção de que não é bom. Por ser homem, ainda que em genitália e mente eu seja o oposto, mas é assim que decidiram chamar-nos todos e por isso prossigo, acredito que só nós homens temos essa faculdade, e não ouso botar palavras na boca de um ser que não se defende na língua latina. Creio eu que só mesmo gente -- e no caso, a gente -- consegue permanecer numa decisão ruim. 
No documentário "Jogo de Cena", de Eduardo Coutinho, uma das últimas entrevistas é a de uma menina de olhos meio puxados. Ela conta que, com 11 anos, parou de falar com o pai após uma briga, que culminou num infarto. Misturada de medo e raiva do pai, mesmo morando na mesma casa, a menina não lhe dirigiu mais a palavra. Ele não entendeu, e tentou romper o silêncio dela -- há um momento emocionante em que ela fala do choro dele, que só viu essa única vez. Depois de um tempo, "desistiu de mim", e conviveram cerca de cinco anos sem se falar. Até o dia em que o pai, como todos os pais e todos os homens e plantas e animais, desencarnou. Coutinho pergunta, com a voz rouquíssima, "Mas você não se arrependia? Não tinha vontade de voltar atrás, falar com ele?", ao passo que ela respondeu, e eu a entendo de todo o coração, "Eu sabia que fazia algo ruim, mas simplesmente não conseguia mais falar com ele depois de um certo ponto". 
Muitas vezes me vejo nessa mesma ação, fazendo ou persistindo em algo que sei que não é bom, e não é porque acredito que aquilo compensará, ou que o caminho é dolorido para a redenção final -- eu simplesmente sei que não há, em qualquer momento, qualquer honra naquilo, e que estou trabalhando com as ferramentas do tédio e da temperança, e que nada sairá daquelas cânforas que jamais vertem água. E mesmo tendo noção de tudo isso, prosseguimos. Muitas vezes, quando devemos ser fortes como elefantes, e prosseguir de fato, heróicamente, empacamos como mulas. Porque oscilamos entre o elefante e a mula, e porque contemos elefante e mula, mas nos falta o discernimento da transformação?
Me identifico mais com a mula no momento. Uma mula empacada, é o que sou. E todos me pedem pra ter calma, até mesmo as cartas. A única coisa que corre no momento é o oráculo, de resto, tudo é espera, tudo é tempo, tudo é mula empacada. Só posso fazer sentar e esperar, vendo o céu mudar de cor, viver com a sensação de que há uma decisão a ser tomada mas que não há, ainda, voz de comando. 

Hoje a tarde, quando fui ao mercado na cidade baixa, encontrei uma baiana que faz máscaras e guias de orixás, que já conheço de outras temporadas. Ela me deu uma pulseira de Iansã, que estou usando até agora. Mula empacada adornada, pra lembrar que quando parar de ser mula, é mulher.

20/01/12

Minha Bahia de todos os santos




Tô na Bahia.
Tenho cara de baiana? ôxi. Será que alguém em pleno 2012 ainda acredita em cara?
"Fulano tem cara de".
Nossa cara já se misturou há muito tempo! Esses dois ólhinhos (da música dos Novos Baianos, com aquele sótáque de Baby) vêem uma menina branca, mas essa menina é branca falsa.
Ah, se tudo fosse cara. Mas como não é...

Minha amada Salvador...
O que acontece comigo nessa terra, sei dizer não.

Abri a Folha de São Paulo e, no verso do caderno de cultura, uma crônica da Fernanda Torres chamada "Homus Bahianus". Achei o título genial, porque só quem convive com o homus bahianus sabe o que é. Não tem povo igual ao baiano -- e todo o meu vômito de repugnância aos que usam o termo "baiano" pra falar de uma coisa ruim. Coisa de gente que nunca foi pra Bahia. Meus pêsames.

A crônica diz, "É mesmo impossível negar a fé na Bahia", e nunca ninguém disse tão bem o que eu sentia.
O primeiro eureka da minha relação com a Bahia veio numa entrevista do Pierre Verger. Ele explicava porque escolheu o estado brasileiro pra morar, e aí eu comecei a entender, com letras e verbos, todo o meu amor. Verger nasceu em 1902, na cidade luz Paris. Como fotógrafo jornalístico, rodou o mundo inteiro, e parou em Salvador (lá pelos anos 50). Justificando a mudança definitiva pra cá, Verger disse que não há nenhum lugar no mundo como a Bahia. Aqui o negro vive como é, sem a opressão e o preconceito. Aqui o negro é tal qual o é na África -- está em casa, inteiro. Só na Bahia se vê isso. Quando li, arrepiei inteira. Pela primeira vez na vida, entendi que a paz que sinto aqui em muito se dá pelas cordas frouxas dessa não tensão racial, que está tão impregnada nas ruas da minha cidade. Isso já muda tudo, e é apenas uma parte.
Junto com a questão levantada por Verger, vem a frase de Fernanda Torres. Quem vem pra cá é pra dar de cara com a sua fé. Foi aqui que descobri a minha, foi aqui que tudo começou pra mim. Muito antes d'eu saber de fato, e antes d'eu assumir, já fui chamada, na xinxa mesmo. "E aí, qual vai ser", me encaram as mangueiras. Aqui adotei um boxer e o vi morrer abruptamente com pouca idade, provei a comida que mais amo no mundo, descobri que minha cor é vermelha e que não adianta fugir do oculto. Aqui descobri a música, o alimento da alma e da barriga. Tudo aqui.

Essa terra é abençoada, e com toda a verdade do mundo se chama Bahia de todos os santos.

Talvez eu passe aqui uma longa temporada, se houver possibilidade, e se os deuses e santos permitirem... Porque aqui tudo é assim. Se você deseja e merece, a manga cai no teu pé. E você agradece pro céu.

19/01/12

Sobre filmes e imagens em movimento

"Eu em movimento" pro RioEtc. Já viu? 
(pra votar em mim, basta dar "like" ou comentar no post)

Admito que ficou um clima meio terror. Curioso isso. Tudo que fiz em vídeo, nos idos tempos de modelo, era totalmente dirigido. Eu era um mero peão branco embolado em panos e atitudes pré-estabelecidas -- a persona dos criadores. Nesse vídeo, sou eu mesma. Meio lúgubre, meio assustadora, de aparência duvidável, mas sou eu.
Convites para filmes de terror, estamos aí. Já saquei que não serei a mocinha.


E por falar em terror...

Os americanos correram atrás até a década de 80 pra fazer bons filmes, mas nossos companheiros latinos estão matando a pau nos anos 2000. Não sei se é o idioma, mas os filmes de terror espanhóis são simplesmente assustadores. Outro dia assisti "Los Ojos De Julia", que deu belas chineladas nos yankees e seus remakes vergonhosos. Menção honrosa a versão original de "REC", altamente apavorante.
Aliás, recomendo "Los Ojos De Julia", assim como toda a safra de filmes latinos, não só de terror. "O Segredo Dos Teus Olhos", "Um Conto Chinês", "Medianeiras". Pode ir na fé.
É com muito orgulho que volto para as aulas de espanhol.

Ontem, já em solo baiano, fizemos a tentativa de assistir "Suspiria", de Dario Argento, o mestre do giallo -- como eu amo falar giallo, literalmente "amarelo"os filmes de serial-killers italianos -- mas foi uma tarefa difícil tarde da noite pois o filme era todo falado em italiano e a legenda em francês. Ou seja, fiquei com taquicardia. Mas não desistirei.
Uma coisa maravilhosa do Argento é que as trilhas dos filmes dele -- absolutamente maravilhosas -- são feitas por uma banda de rock progressivo italiano chamada Goblin. Vale muito a pena baixar os discos e ouvir em casa. Comece por "Suspiria", que é lindo. A arte dos discos também é incrível, assim como a dos filmes. Quem disser que é cafona eu jogo um copo de vinho na cara, bem dramática.

Engraçado que, enquanto eu estava na sala da casa da falecida avó do meu cônjuge, aqui em Salvador, escrevia sobre coisas felizes. Mas para entrar na internet, precisei ir até o antigo escritório do avô.
Não há nenhuma dúvida de que o ambiente aqui é antiquíssimo. Se vivos, ambos teriam mais que 100 anos de idade, e a casa permanece tal qual deixaram e como sempre foi.
Na escrivaninha com pés de madeira grossíssimos, me encara um porta-retrato com a avó muito nova, sorrindo, um exemplar da "Divina Comédia" de Dante que data de 1400 e um azulejo pintado com a seguinte frase: "Signore Benedici, chi non mi fa perder tempo".
Essa casa seria um ótimo cenário de filme de terror, embora a energia seja boa demais para assombrações. Não que eu não escute a madeira estalar de madrugada, e por vezes sei que não estou sozinha -- mas alguém em algum momento de fato está?

Talvez venha daí meu costume de pedir licença quando entro.
Talvez por isso eu não posso ser a mocinha do filme de terror.