28/07/2012

O que sobra pras mulheres que não vivem só de amor?




Você não deveria pintar suas unhas do pé de esmalte escuro. Faz parecerem sujos.
Estou sempre com os pés meio sujos. Quando escorrego pelo sofá, noto a pretidão daquelas solas meio grossas meio finas. Bastam alguns passos para enegrecerem. Os pés dele estão sempre limpos, ainda que exalem cheiro de suor ocasionalmente. Os meus não. Nunca suam. São frios como mármore. Essa é basicamente a diferença entre nós, se eu precisasse espremê-la em uma hora de sessão de análise. Chama-se associação livre, eu diria isso e o analista entenderia tudo, traçaria um mapa de infância, de como meu pai me tratou e a mãe dele o tratou, com quantos anos iniciamos nossas vidas sexuais, se eu já tive um orgasmo ou não. Você não fica muito tempo falando de relacionamentos, disse o analista. Isso é incomum. A maioria das mulheres vem aqui e falam de seus casos, namorados, maridos, ex maridos. Sobre o que devem pensar e o que fazem quando não estão com elas, e de como não as olham mais. Ninguém faz análise quando está apaixonado, concluo dentro do cérebro, enquanto ele continua em círculos. Você não fala do seu relacionamento amoroso, isso é curioso. Você não odeia os homens. A maioria das mulheres, ainda mais com a sua história de vida, odiaria os homens, culpá-los-ia. -- Penso em algo pra dizer. Ainda faltam uns vinte minutos. Parto pra outra livre associação. Conheço bem o jogo da análise. São dez anos. Quando não sei o que dizer, enfio uma livre associação, e sempre dá em algum lugar. Odeio pés, digo. Não suporto olhar os pés dos outros. Alguns pés me repugnam profundamente. Já namorei homens cujos pés não conseguia olhar, e quando queria odiá-los, quando estava chateada ou já não os amava mais, espiava seus pés só para sentir nojo. O que isso diz sobre mim? Nem tudo que a gente faz quer dizer alguma coisa, ele responde. Mas porque você, novamente, está usando os pés para introduzir uma questão sobre os seus relacionamentos? Você tem dificuldade de falar sobre isso? Porra, Marcos – eu chamo o analista pelo nome próprio. Preciso ser tão clara? Eu odeio falar sobre relacionamentos. Na verdade odeio pensar em outras pessoas que não eu, porque eu odeio conjeturar o que o outro está pensando, e assim num eterno xadrez. Odeio ficar no sofá pensando por onde anda fulano, o homem que eu amo, e odeio mais ainda ter que ligar para perguntar onde ele está, coisas assim que as pessoas fazem. Eu até faria, se achasse que isso é bom. Pra mim não significa nada, mas se pusesse um sorriso nos lábios de alguém, eu o faria. Mas tenho o feeling de que eles odeiam isso tanto quanto eu. Esse tipo de informação simplesmente não agrega absolutamente nada. E tenho pavor dele não querer me atender, não querer saber de mim. Suponho que quando não está comigo é porque não quer saber que existo. E tudo bem. Odeio dizer onde estou. Parece idiota. "Estou na farmácia, comprando remédio para harmonizar a flora intestinal". Ninguém diz isso. Então mente. "Estou na rua". Por isso que a idéia de casar é tão insuportável, porque isso pressupõe que devo estar o tempo inteiro com ele -- no dedo, no sobrenome, na chave de casa, sei lá, a porra toda, Marcos. Nenhum homem suporta isso. O amor não existe num território assim. E eu não suporto todas essas mulheres que ficam escrevendo sobre amor e paixão nessas revistas e blogs, são todas umas fodidas. Ninguém que está vivendo feliz a sua vida vai ficar escrevendo esses dramalhões. Eu sou uma escritora, Marcos, e sou mulher. Não posso me submeter a essa literatura de merda. Prefiro escrever sobre pés. Ou sobre dentes, ele responde. O que? Sobre dentes? -- Sim, seu próximo livro não é sobre dentes? É, é sim. Sobre dentes. Mas não tem nada a ver com amor. Tem a ver com animais, e com homens cruéis, e esse tipo de coisa. Não tem nada a ver com homens e mulheres, amorosamente falando. Então agora ele solta aquele pigarro-de-fim-de-sessão, o pigarro que ele solta pra preencher um silêncio provocado por ele próprio, seguido de um sorriso finalizador, o aperto de mão e o giro da maçaneta. 

Um comentário:

Camila disse...

Ele parece ter tido um grande estalo que deu sentido a tudo, mas então não te disse nada, pigarrreou e fim. Porra. Essa sempre é a graça e o motivo de estresse depois da análise.