08/07/2012

02.Paris__________________________________________{BANG@!}

Perguntei prum taxista onde eu poderia comprar cd's nessa cidade e ele me olhou torto. Disse que a Virgin faliu; um árabe comprou o prédio por 440 milhões de euros, e que tinha a Fnac, que ainda vendia uns disquinhos, lá na Rue de Rennes. Dava pra ir a pé. Fui. Estava cansada, mas a vontade de ouvir Banga era maior.

Banga, o disco novo da Patti Smith. BANGA.

Eflúvio de primeira sensação. Desvirginação. Sou um bebê de 88. Quando comprava discos, era bem pirralha. Sempre foi emocionante, mas a emoção de abrir a janela pra sentir o jato de ar -- sem saber de onde vinha o jato de ar. Agora há o amadurecimento do jato de ar. É o cálculo ideal do sopro levantar os cabelos. 
Banga é o primeiro. O primeiro disco que aguardo, daquela grande artista que eternamente te canibaliza como uma imensa aranha peluda. E pêlos tem tudo a ver com Banga, com Patti. Pêlos e culhões. 

Sou uma capricorniana crítica como o mais branco dos anjos -- porque o diabo jamais será crítico, muito pelo contrário; o diabo é o sim absoluto. Não gosto de nada que escuto. Minto, até gosto, mas não me emociona, não me toca. Gosto de emoções profundas. Gosto que enfiem o dedo nas minhas entranhas. Gosto de não conseguir segurar lágrimas, gritos. Avalanche. Sou séria demais e preciso de emoções fortes a altura. Altas doses de qualquer coisa. Potência. É por isso que gosto do que gosto, e sou fiel ao que gosto. Gosto pra sempre. O homem que me toca, tocará para sempre (em alguma esfera). O disco que amo, amarei para sempre. Nem que o tempo passe, as coisas mudem, mas está santificado na minha capelinha. Erigir monumentos de pedra aos meus, é o que faço. Patti Smith tem sua estátua lá, de turmalina negra onde os cabelos emendam as roupas e vê-se o nariz saltado sugando todo o ar desse mundo.

E Banga, oh, BANGA. What the fuck is banga? Sei que haverá uma história, e que vou suspirar com ela. A isso chama-se confiança.

Gosto de gente que possa confiar.

Entro na Fnac e os auto-falantes avisam que está prestes a fechar. Corro, literalmente, tal qual uma fã de Justin Biber. Pergunto no meu francês de três anos de idade où est Banga?, où est Banga?????. Banga é um ferido de guerra, só o toco; braços e pernas implodidos pelas armas de Napoleão. De Banga só restou a boca. Ele não pode ir até mim. Eu preciso ir até ele. Desço dois andares e o encontro, numa pilha com outros bangas, quase da cor da estátua no meu altar. 17,99 euros, edição especial de lançamento, que acompanha livro. Patti é uma mulher digna de total confiança.

Folheio o livro em pura excitação. Descubro que Banga é, na verdade, um cachorro. Fecho o livro. São emoções que não consigo lidar agora. Só preciso ir pra casa, dormir, acordar, andar e, quando o céu permitir, botar o disco pra tocar. 

Demoro 48h para realizar o ato. 07/07. Não é o numeral, apenas a vontade.
Botei a mochila nas costas e saí pela cidade, lá pelas 15h30 da tarde. Chovia muito e fazia 17 graus no verão parisiense. Segui pela Rue de Tournon, que virou a Rue de Seine, e fui parar no rio Sena. Fotografei ralos triangulares, andei até o Musée D'Orsay, encostei o nariz nos Van Goghs e Gauguins. Pude sentir o cheiro da tinta. Curiosamente, depois fui ao banheiro e meu nariz sangrou -- o que é muito, muito raro. Fui expulsa de lá porque o museu precisava fechar, comprei um portentoso mapa de Paris e a Pariscope e o jornaleiro perguntou se eu era allemande e me chamou pra ver um filme. Ele foi tão educado que agradeci, expliquei que não seria possível devido a minhas configurações sentimentais, mas que merci beaucoup, e muita sorte na vida. Ele sorriu. A chuva apertou e resolvi voltar para casa por dentro das ruelas ao invés de seguir novamente o Sena. 
Essa é a hora. 
Enfiei Banga nos ouvidos e apenas caminhei. 

Amei o disco (e foda-se o que você pensa, com todo o respeito, porque freqüentemente eu me preocupo demais em não ofender os outros, principalmente na seara gosto, mas nesse caso eu realmente não quero saber, nem discutir). Chorei, chorei. Caralho. Pontadas no peito. E quando começou Banga, a faixa título, lágrimas corriam mais rápido do que pude segurar. Pensei no meu cachorro, no meu fido, pura confiança encarnada. Meu fido finado, cujas cinzas estão no mar. Loyalty rests in the heart of a dog/Don’t set all your eggs on the back of a frog, canta Patti. Loyalty lifts and we don’t know why/ And the paw is pressed against the nerve of the sky/ You can leave him behind but he won’t leave you/ And the road to Heaven is true – true blue. HEAVEN IS TRUE. Chorei como um lobo, rangendo os dentes.


BANGA IS A DOG.

Loyalty rests in the heart of a dog
Don’t set all your eggs on the back of a frog
You can lick it twice but it won’t lick you
And salivating salvation gone so long so
Loyalty lifts and we don’t know why
And the paw is pressed against the nerve of the sky
You can leave him behind but he won’t leave you
And the road to Heaven is true – true blue
Banga
Say Banga
Say
Loneliness lifts when you open the night
Pilate awaits, as Jesus Christ
Forget him not – won’t forget about you
The way to Heaven is blue – boo hoo
Say - Banga
Say - Banga
Loyalty shifts if you carry a load
Ah, don’t shit it out in a golden commode
You can kick him twice – it’ll erode
Night is a mongrel – believe or explode
On the lonely night
On a golden road
Night is a mongrel
Believe or explode

03/07/2012

01.Paris______________________________PARIS

Estou em Paris.
Se meu celular fosse moderno, eu faria questão de que todas as redes sociais disparassem que eu checked in Paris. Já que isso não acontece, preciso eu mesma alardear.
(além do mais, o celular é vagabundo e pifou)

Eis porque é importante, para mim, alardear que estou em Paris:
> Capital mística & libertina do mundo -- porque o Egito é místico em sua máxima potência, mas é um misticismo abafado. (se eu botar um asterisco aqui será tão grande que vai ficar chato. quem sabe outro dia)
> Encontro vários outros fenótipos similares pelas ruas -- e os franceses continuam achando que eu pareço a Betty Blue, o que me vinga por todos os anos da infância onde eu fui chamada de dentuça.
> Família, e puramente isso. Cidade da sogra, casa da sogra com janelas onde somente eu sobre eu poderíamos tocar o cume de madeira antiquíssima. E no mais, a própria sogra, palavra muito utilizada em piadas que não me fazem nem rir de compaixão. Se uma legião de pessoas reza o Ave Maria em homenagem aquela que uterinou Jesus o próprio, eu rezo uma Eva Maria por aquela que pariu o meu amado extraterrestre. Meu sentimento é tão entranhado que, ao invés de "eu te amo", poderia soltar um grunhido.

Aos poucos, a adrenalina baixa.

Só pego avião com roupa de ginástica. Pronta pro abate, pronta para correr, pronta para me atirar de pará-quedas ou em queda livre. Vôo Rio-Paris é puro abate, carnificina. 12h dentro de um avião cheio de pulgas. A coceira só aparece quando o efeito do tranquilizante passa. Mas eu sou toda enfrentar medos. Bem acompanhada, no conforto do bico do avião, jantando codorna recheada, reduzi a dose por um terço e me diverti. Como diz minha amiga com nome da heroína da "Divina Comédia", eu preciso superar essa merda. Não posso limitar meu espaço por causa do medo da carcaça voadora medieval. Não posso ficar escrava da pilulinha azul. Porra. Seja homem, Duda. Digamos que fui Valete de Paus, não cheguei a majestade, mas vamos lá.

Paris ensolarada diz oi. Deito na cama e durmo até as 18h. Seis da tarde, horário de Paris. No Rio de Janeiro são tipo uma da tarde, creio eu. Meu celular pifado tá no horário carioca, meu computador que não me deixa na mão tá no horário francês. É equilíbrio perfeito.
E o sino lá fora avisa de hora em hora, que nem o relógio da minha cozinha.

Agradeço a cada minuto por olhar pela janela e ver o Jardin du Luxembourg.


  Eu e a xícara prato-de-sopa, prazer infantil de beber nela

28/06/2012

DA SENSAÇÃO DE LANÇAR UM LIVRO

É mezzo meu, mas ainda um bocado.
Antologia de novos autores, mais de dez. Meu conto fecha o livro. É uma baita responsabilidade para ombros capricornianos.
Não é só meu, mas é muito meu.

Considere. O escritor é o bicho mais solitário que tem. Pior que eremita. Imagine se o eremita tivesse lápis e papel numa caverna das entranhas da Índia? O eremita, obrigado a refletir sobre si mesmo e desfragmentar-se em caquinhos de personagens que metem o dedo no córtex somatossensorial, em pleno isolamento, deparando-se com sua própria caligrafia de merda. Capaz de implodir ao contrário. Ao invés de paz, tratado de guerra. Por isso tantos de nós bebem. Mal bebo hoje porque atravessei os portões; consagrei minha mesa de tarot e a ele sirvo. A punição dele é pior que mamãe ou deus.

E aí, abre-se uma janela. O lançamento. A ocasião que finalmente vê a cara de alguém, sai do buraco, do útero envelhecido e estéril que se enfiou no último ano. Quando vira de verdade. Quando alguém te lê em voz alta. Quando alguém diz algo na tua cara. O lançamento. Quando teus amigos vêem que você é louco mas não é vagabundo. Quando teu pai finalmente tem um papel com o seu nome pra pendurar na parede.

Você precisa ser desvirginada, disse o moço mais velho. Alguém precisa tirar esse seu cabacinho. Depois do primeiro, os outros doem menos. Achei esquisita a metáfora. Por acaso você quer me foder? Ou me ajudar? Leio nas entrelinhas. Não esqueça que fiz pacto com o diabo.
Eu preciso lançar, é isso. O primeiro. Sem metafodência pro meu lado, querido.

Lancei, lancei. Se é verdade, não sei. Mas agora sou escritora de verdade. Meu pai pode me colocar na parede. Meu marido pode andar com o livro pendurado no pescoço que nem crachá e me comprar um iPhone de presente porque minha mulher é escritora, por isso ela não tem dinheiro, mas ela merece falar ao celular e tirar fotos bonitas.
Muita coisa muda, de um dia pro outro. Eremita que saiu da toca. Eremita que ganhou computador com internet. Não mais tão sozinho, mas de volta a alcova.

E que venha o próximo livro.


Pedi licença pra virar umas garrafas e interrompi pontualmente as 3h da manhã.

26/06/2012

Há quanto tempo não venho aqui... Sinto até vergonha.
Dou umas chibatadas nas costas.
Falta-me organização. Sou nova nessa trabalho solitário de portas fechadas e janelas abertas. É difícil escrever e passar o dia inteiro comigo mesma, julgando cada palavra, fechando-a numa gaveta para depois redescobri-la.
Com isso, te reneguei, blog. Mas não por muito tempo. Espero que entenda. Somos velhos amantes.

A quem ainda entra aqui, minhas sinceras desculpas e um pedido: compareça hoje ao sebo Baratos da Ribeiro, em Copacabana, (R. Barata Ribeiro 354), as 19h. Estarei lá dando a fuça a tapa, lançando meu primeiro conto publicado, integrante da antologia de novos autores da Flaneur, "Clube da Leitura II".

Por favor, vá.

01/04/2012

Crônica nova

Hoje, domingo, sai minha crônica no Rio Etc.
Link direto aqui >>>>>>>>>>


Vai lá, dá uma força, comenta, compartilha, tuíta... Agradeço muito desde já!




Um beijo e um ótimo domingo a todos!

30/03/2012

HEY, YOU




Há um outro mundo chamado THE WALL. 
Não é um projeto musical. É um ecossistema com governo e emoções próprias. Bandeiras próprias. Reações próprias.
Ontem, vesti minhas botas de combate cor-de-sangue e entrei em The Wall, como um soldado. Não consigo não me sentir um soldado quando escuto e vejo The Wall. É um grito de reaja!, reaja!, reaja!, em forma de música.

Metrô lotado até a Central do Brasil, há muito tempo você não esbarrava comigo. Já entrei muito em vagão lotado em horário de pico. Foi um sofrimento até pensar que tinha gente que vivia isso todo dia a vida inteira, e que essas pessoas nem podiam se dar ao luxo de ter um ataque de pânico. Aí relaxei, entendi que era isso aí. Ontem repeti a sensação. Fãs de Pink Floyd uniformizados se espremiam com trabalhadores do dia-a-dia. Cabelos compridos e cabelos com gomalina no mesmo vagão. Tentei tranquilizar o próximo, que não estava acostumado. Sei que dá pânico, mas ei, tamo junto. E ainda temos um trem pra pegar.
Central do Brasil 19h50 da noite, borbulhando. Mais fãs. Minhas botas de combate cor-de-sangue chamam atenção. Está um pouco quente, mas preciso usá-las. O trem especial rumo a The Wall contrasta com o trem comum azul turquesa que repousa ao lado. O trem especial tem ar condicionado, o outro não. Dá pra ver as janelas e bancos quebrados, a sujeira, cartazes rasgados. Deu uma tristeza. Foda. Uma voz microfonada diz, "Bem-vindos ao vagão especial para o show de Rogers Waters!". As pessoas vibram. Que merda. Próxima estação, Engenho de Dentro. 
A sensação de estar num vagão com centenas de fãs e trilhares de emoções e expectativas é sufocante. A preocupação com o horário é latente. Nós somos gado. Não dá pra dar um passo de um metro, a gente vai marchando, não que nem soldado, mas que nem condenado. Subindo a escada, descendo a rampa, entrando na fila. A fila. Pra isso servem as botas de combate. Não queira furar a minha frente, amigo. Eu sei que você tá tenso, eu também tô, mas aqui não, e não duvide. Fui atraída para um coroa grande e forte, que berrava com voz grossa, "Oi, você tá furando fila não né? Porque pra mim, quem fura é babaca. Ba-ba-ca!". Colei nas costas do coroa. E ninguém, mas ninguém, ousou entrar na nossa frente. 
Estamos dentro. Estamos dentro. Muros brancos cercam o palco. Estamos dentro de The Wall.

Não é a primeira vez que vejo Roger Waters no palco, mas é a primeira vez que vou ver a parede ruir. Não era nem nascida quando a idéia foi concebida. The Wall é mais velho que eu.
Então soam os primeiros acordes, e um avião vem por trás de nossas cabeças, e BUM
O que posso dizer de ver um filme-ópera-rock transformado em show ao vivo, potente? Use sua imaginação e faça uma lista de todos os adjetivos que houverem no seu cérebro. Foi exatamente isso aí.

Muita coisa acontece quando aos 13 anos você se identifica brutalmente com Another Brick In The Wall. Muita coisa. E tudo está relacionado a resistência. Meu pai tinha o vinil, que agora é meu, e eu cantava essa melodia pro meu coelho -- e acho que ele gostava. Essa foi a primeira música que aprendi a tocar na bateria, um pedido ao meu professor jazzista. Era o que eu escutava todo dia, no discman, a caminho da escola. Só essa música. Não conseguia muito ouvir o disco inteiro, confesso, porque era barulhenta demais. Gostava de punk e hardcore. Aqueles arranjos melancólicos eram difíceis. Ouvia muito de vez em quando, desenhando, escrevendo... Mas a caminho da escola, era só ela. A música fragmentada pelas lombadas do caminho, o cd pulava e pulava, e eu sabia tudo de cór. E quando eu ia pra escola, de preto, rasgada, levava isso as últimas consequências (e isso incluía, no mundo adolescente, escrever a letra no tênis). Até o momento crítico em que fui repetida de ano porque precisava "amaciar", e eles achavam que isso funcionaria. Mas eu era emancipada, e fui fazer dois supletivos. O do 2o e 3o ano. Fiz vestibular e passei em 50o lugar geral. Bom pra caralho. Entrei pro que eu achava que queria, de primeira, mas não sobrevivi dois anos ali porque we don't need no education... o resto é história.

Esse continua sendo meu mote, a diferença é que a educação se transferiu para O RESTO DO MUNDO. Voltei pra faculdade, agora estudo Psicologia a noite. Estudo mais um monte de coisas. É como se eu fizesse várias faculdades paralelas. Eu gosto. Preciso. Mas não vejo mais professores como inibidores de criatividade, castradores de pensamento. Também não quero destruí-los, não quero procurar erros em seus métodos e jogar isso na cara deles (eu fazia isso, e já me fodi muito, muito mesmo). Acho que fui agressiva demais no colégio, não quero repetir isso. Quero usar a faculdade a meu favor. Quero me educar sim, para poder fazer o que fiz ontem. 

Eles nos deseducam a achar que não temos voz ou poder. Mas temos, especialmente quando gritamos juntos. No meio daquele estádio imenso, música alta, palco tingido de vermelho, eu absorta pelo espetáculo, escuto do meu namorado-marido que cinco seguranças, de terno e gravata, estão há 10 minutos falando alguma coisa com um garoto que fumava maconha. Achei estranho. Nenhuma repreensão dura 10 minutos. Podiam estar sendo extorquidos, ou humilhados. Percebi que todos a minha volta olhavam apreensivos. Olhei pro porco inflável que começava a voar pelo palco e comecei a gritar, no melhor estilo kamikaze, em direção aos seguranças, que estavam a menos de dois metros de mim, "PORCOS FARDADOS! PORCOS FARDADOS! FORA, PORCOS FARDADOS!". Eles começaram a olhar, não acreditando. Que nem uma louca, gritei e bati palmas. Os caras do lado começaram a fazer coro. As pessoas começaram a se empolgar. Em poucos segundos, uma galera começou a gritar e a mandar os seguranças darem o fora. A maioria homens, gritando grosso. Os engravatados, diante da pressão popular, saíram de fininho, em fila indiana. A multidão vibrou, o garoto e a namorada agradeceram muito. 
Consegui uma carona pra ir embora e acabei dando meus bilhetes de metrô e trem pra eles.

Isso agora é o que eu faço com o que titio Waters me ensinou em The Wall. Kamikaze como um piloto que dirige um avião e o choca contra um muro segregador. Prazer em ser kamikaze. Prazer em usar o sistema contra ele próprio, porque ele fabrica provas contra si mesmo o tempo inteiro. Prazer de ser inteligente e reconhecer o que há de bom e lutar contra o que há de ruim. Prazer de saber que não devo nada.
Isso é The Wall.



Hey You (Pink Floyd)

Hey you
Out there in the cold
Getting lonely, getting old
Can you feel me?
Hey you
Standing in the aisle
With itchy feet and fading smile
Can you feel me?
Hey you
Don't help them to bury the light
Don't give in, without a fight
Hey you
Out there on your own
Sitting naked by the phone
Would you touch me?
Hey you
With your ear against the wall
Waiting for someone to call out
Would you touch me?
Hey you
Would you help me to carry the stone?
Open your heart, I'm coming home
But it was only, fantasy
The wall was too high, as you can see
No matter how he tried, he could not break free
And the worms ate into his brain
Hey you
Out there on the road
Always doing what you're told
Can you help me?
Hey you
Out there beyond the wall
Breaking bottles in the hall
Can you help me?
Hey you
Don't tell me there's no hope at all
Together we stand, divided we fall

15/03/2012

Imagem do dia

Decidi que vou postar todos os dias.
Quando não um texto, uma imagem.
Começando... agora!



Créditos: Fab Ciraolo 
http://fabianciraolo.blogspot.com/

12/03/2012

Coisas que a gente não escreve na agenda

Perdi minha agenda.
Já procurei em todo lugar, e nem tem tanto lugar pra procurar. Depois de três voltas, constato que a perdi, pois não está nos lugares estabelecidos como possíveis. Impossível encontrá-la. A boca recém-operada pede dramaticamente preu não me abaixar mais uma vez, e parar de andar, senão eu vou inchar inchar inchar, e sangrar... por favor, pare. Então eu paro e sento. Ligo uma música, vou para o computador e fico pensando em tudo que está escrito nesse dia de segunda-feira que eu não vou fazer pois não achei a agenda. Faz parte da filosofia de viver um dia de cada vez -- eu nunca folheio a agenda pra saber o que há no dia seguinte. Nunca. Acordo cedinho, aí sim abro e vejo, ah! dentista!, assim não sofro por antecipação. A única coisa que sei que tem pra hoje é o primeiro dia de aula. Mais um primeiro dia de aula, pra quem achou que tinha acabado.
Não é de hoje que sofro por não ter completado a faculdade, então porque não? O momento pareceu propício. A vida desacelerou -- não andou pra trás, mas diminuiu marcha. Alguns vestibulares ainda rolavam, de repente eu faço e vejo no que dá, praquele curso lá que eu queria fazer mas não fiz na época e tem tudo a ver comigo. Me inscrevi, dois dias antes da cirurgia prestei o novo vestibular e dois dias após a cirurgia descobri que passei, mas que só abriram 3 vagas e, bem, corra.
Fui lá, cara inchada, desencavei o diploma, o histórico, e em poucos minutos estava matriculada no curso de Psicologia. Sim, senhores, sou a mais nova aluna de Psicologia e hoje é minha primeira aula.
Isso me faz refletir sobre o fato de todos os malucos analisados acabarem cursando Psicologia. Vai todo mundo parar lá. No meu caso, há dupla ambição: primeiro, angariar material de psiquê humana pra escrever; segundo, respaldo acadêmico pra atuar na área de terapias holísticas, um estudo já em andamento.
Pareceu plausível, racional e nem um pouco emocional, por isso acredito na decisão. Não vou pesá-la com expectativas de agenda, vou deixar o dia seguinte pro dia seguinte. Vou ser leve como a Estrela. Não consigo acessar a matrícula pra ver as aulas de hoje, mas tudo bem, chego lá mais cedo e resolvo isso. Quem sabe me acostumo um pouco com a sala de aula, assim ninguém verá o pavor diante dos meus olhos quando aquela porta se fechar. Tenho fobia acadêmica. Mas, ela há de passar, e minha nova auto-terapia inclui fazer tudo que dá pavor. Uma das coisas foi arrancar logo de uma vez os dois sisos que faltavam e que tanto me davam medo e problemas e dores de cabeça.

Eu preciso de símbolos pra funcionar, como se minha mente fosse uma engrenagem sombria daqueles jogos de RPG onde o personagem meio-homem-meio-animal precisa fazer brilhar o símbolo correto em cada parte para ela começar a girar. Eu precisava de um símbolo, um amuleto, que fizesse a roda continuar girando, pois ela estava meio parada (ou paralisada, de medo). Então marquei de arrancar os dois sisos, e o fiz, após 10 anos fugindo. Confiar um problema ao futuro é no mínimo perigoso, pois o futuro é agora e daqui a 3 segundos, e você será impiedosamente esmagado pelo que está empurrando até que decida acabar com aquilo de uma vez.

Vou entregar esses dois fósseis a alguém que possa transformá-los num colar. Serão meu amuleto, o amuleto da excisão, da remoção, da superação. Sombrio, como minha própria engrenagem interna.



05/03/2012

Não desista.

Segunda-feira, 12:19, mesa de jantar.

É tudo que resta, a única superfície. Meu escritóriozinho, de estante de madeira vermelha e cristais e pedras energizantes, está coberto de plástico negro. Na parede, um buraco. Ligaram pra cá reclamando com sotaque francês dizendo que havia uma infiltração e a culpa era nossa, o apartamento de cima. Soou como xingamento. Xingaram a minha mãe. Você tá dizendo que tá vazando coisa no meu apartamento? Do meu escritório? Não tem nem água lá, nem pia, nem privada. Brigo sozinha em casa. Como podem dizer isso? Sacanas! Canalhas!
O surto foi em vão, o bombeiro constatou que sim, passa um cano maldito na parede do meu escritóriozinho. Tem que quebrar, ele disse. Não deu previsão de tempo pra curar o pinga-pinga. E como todo serviço do gênero, a todo tempo que se dá pode-se esperar o dobro.
Era pra ser 1 semana, faz um mês, e eu fui adoecendo um pouco. Sem espaço. Meditar no quarto não dá, porque é a energia de duas pessoas ali, e o momento é único, pessoal, solo. A outra escrivaninha não dá, é a mesa dele, com as coisas dele, o computador não cabe direito e eu não quero tirar nada do lugar nem influenciar o espaço. Não consigo escrever no chão, dói a coluna. Se o fizer na cozinha, não consigo parar de comer. Não vou levar o computador pra rua. A mesinha da varanda está lotada de plantas num belo arranjo que eu mesma arrumei esse fim-de-semana.
Não tenho lugar. Parece desculpa, mas não é.

Tô descobrindo que muito do que parece desculpa na verdade não é.

Ser escritor é o sinônimo leve da loucura. Em alguns momentos, me descabelo. Murakami já alertou que se você deixa qualquer pendência, não consegue se concentrar para escrever. A literatura me obrigou a refazer o encaixe das coisas, me obrigou o exercício físico e o dentista regular -- sim, de volta ao aparelho fixo, porque o silêncio me faz sentir os dentes se moverem na boca. Esse é o nível. Dá pra escutar o fio de cabelo e o pêlo da axila crescendo. A literatura é um tipo de yoga. Nós também somos monges.

É tanta coisa que a literatura obriga. Pra mim, é assim; um rearranjamento de vida. É assustador ver onde ela me levou, e tudo que tive de mudar para abrigá-la, recebê-la. Sinto aquele intenso olha do outro que não consegue lidar com a falta de objetos concretos. Os próximos dois anos da minha vida serão de puro açoite. Busco a reza alheia pra me consolar, e encontrei uma frase de Andre Dubus que vou colar na parede do meu escritóriozinho, assim que houver novamente uma parede:


"Não desista. É muito fácil desistir nos primeiros dez anos. Ninguém liga se você está escrevendo ou não, e é muito difícil escrever quando ninguém liga para uma situação ou a outra. Você não será demitido se não escrever, e na maior parte do tempo não será recompensado se o fizer.
Mas não desista."

02/03/2012

O tempo, a esfinge

Tem 20 dias que não posto, que vergonha.
Impressionante como o estilo de vida é que conta o tempo. Ano passado eu conhecia cada segundo de cada minuto, sentia a hora; estava incrustado na pele, assim quanto-tempo-passou e quanto-tempo-tem. Agora que meu tempo é escrever e ler e estudar, a medida é diferente. A palavra tem outro tempo, e o que acho que são 10 na verdade são 16 ou 17. Não sou mais mulher de horas cravadas, mas de vírgulas, um número que sobra aqui e ali, que não chega a atrapalhar mas as vezes confunde, e as vezes eu levanto correndo porque falta meia hora prum compromisso, e eu não vi o tempo passar, ou melhor, vi, só que vi diferente, com a marcação das letras.
A marcação das letras é muito diferente de qualquer outra coisa. Em uma hora a gente cria uma vida. Eu fico olhando o buraco de céu da varanda e pelo azul, tento adivinhar. Mas o sol acaba virando cenário, e a vida nas varandas do prédio da frente inspira, e lá vai a personagem do meu livro por outra esquina, e eu nem sei mais que horas tem.

Também descobri, nesse tempo, quando brota meu lado ascendente pisciano. O que eu achava que era do turrão capricórnio, na verdade é peixes, que sempre pensei sereno, mas caí em mim. Onde já se viu Netuno, ou Posêidon, ser calmo & carinhoso? O peixe é nervoso, muito nervoso, ainda mais dentro do aquário. Do aquário já me livrei, mas talvez tenha mudado apenas prum tanque maior. As vezes encosto nas paredes e começo a me debater. Não que nem cabra, mas que nem peixe.


Atualmente escrevo pra três lugares.
Pra mim (meu livro).
Pra uma revista digital (ainda em negociação).
Pro site RioEtc, onde participei de uma eleição que não ganhei, mas ganhei uma coluna, o que é muito muito muito mais incrível. Ou seja, ganhei.

Todos os domingos, publicarei na seção "Crônicas Cariocas", que já existia, mas não tinha periodicidade. Basicamente, escrevo sobre a cidade, a minha cidade, Rio de Janeiro. A cidade que é a folha em branco das minhas histórias, das minhas vivências e sobrevivências. Minha coluna tem endereço imutável. Quero convidar a todos aqui do blog a acompanharem, pois é feita com carinho e publicada com mais carinho ainda.

Se eu faltar por aqui, tô lá.
Não por falta de palavras, mas talvez por falta de noção de tempo. 

10/02/2012

Hoje é dia de Mãe Menininha!

10 de fevereiro é aniversário de Mãe Menininha do Gantois, mesmo pra quem vive de fora do Candomblé e das tradições africanas no Brasil. Presente em muitas músicas, de Caymmi a Bethânia e axé, o ateu pode desprezar a questão religiosa e ainda reverenciar o ícone antropológico -- a mulher que brigou com o Estado e conseguiu muitas liberdades ao culto dos Orixás, que como tudo, era proibido.
Vale a pena assistir a esse documentário para entender melhor essa figura tão importante da ligação África-Brasil e que infelizmente fica de fora dos nossos livros do colégio.

Documentário "Bahia Mãe Menininha" 

Parte I

 Parte II

09/02/2012

Sobre os oráculos





É o que venho fazendo nos últimos dias. Muito.
O tarot é surpreendente, absolutamente surpreendente. Um oráculo realmente divino.
Iniciante que sou, tirando joguinhos de cinco cartas pros mais chegados, tenho visto coisas impressionantes. Muitas vezes leio as lâminas me contorcendo de dúvidas, e estou vendo a coisa acontecer na prática. Isso tem me levado a reflexão do quão sério é esse tipo de manipulação. Manipular oráculos é como operar alguém; meio vacilo pode corromper um corpo, e pior, uma mente, em dois palitos. Me assusta também como essas práticas tem sido "comercializadas", o quanto tem de gente por aí fazendo reiki, tirando carta pros outros se nomeando tarólogo, fazendo fogo sagrado, batendo tambor pra invocar animal de poder xamânico... Até mesmo na Bahia tive que me desvencilhar de "ciganas" que agarravam minha mão pra dar uma benção. Algo que aprendi, e que passo pra frente, é que com esse tipo de coisa deve-se ter muito cuidado. Jamais entre num local que não conhece ou deixe alguém tocar no seu corpo e interferir na sua energia. Jamais invoque um espírito se não tiver conhecimento pra isso, ou entender por qual linha espiritual você segue -- ou aguenta. Jamais comece por um tarot de Crowley.
Com a responsabilidade de oraculador e emissor de energia, há um ônus também. Mexer com a energia de outra pessoa é muito perigoso para ambos, emissor e receptor. Eu pago pelos caminhos errados que tomo com o tarot, e preciso de um arsenal para proteger meu corpo e espírito a cada carta que tiro. Não é nada fácil... mas para alguns, isso é imposto, como está sendo comigo. A pessoa é para o que nasce e em algum momento, isso lhe será imposto. É preciso saber ouvir.
Uma atenção redobrada para Netuno, que regressa a seu signo natal, Peixes. Com isso, todas as questões espirituais estarão mais em voga, assim como o delírio em relação a eles. Veremos proliferar todo tipo de terapia energética, mas isso não sairá impune. Como eu disse, há um preço a se pagar, e ninguém está preparado. Por isso muito cuidado com os oráculos, muito cuidado.
Nós ainda somos o grande mago de nós mesmos.

05/02/2012

Moral da história

Trabalhar com a escrita aflorou muito meu lado social. Presto um tipo de atenção diferente, totalmente contemplativa e sem julgamento. Observo as ações como uma médica de autópsia, separo os tecidos, gosto de imaginar o que está embaixo de cada coisa, as razões, as deficiências, as qualidades... Infelizmente, isso ainda não me fez mais tolerante a situações de caráter duvidoso ou arrogância. Ainda não tenho muita capacidade emocional para tratar com frieza quando alguém me deseja mal. Sempre me pergunto se a pessoa percebe que está desejando o mal ou é inconsciente. Não faço idéia, mas pra tentar me acalmar e sentir menos mal nesse tipo de situação, relembro a história que uma amiga me contou num carnaval de anos atrás, numa cidadezinha de Minas Gerais, onde eu estava com os sentimentos fodidos e confusos. O deslocamento valeu a pena, entre outras coisas, por essa história contada no quarto abafado que a gente dividia. É sobre a Marquesa de Araxá, a famosa Dona Beija, que virou até uma novela da Globo com a Maitê Proença.

A Marquesa de Araxá tem uma história triste. Sempre foi uma mulher muito bonita, talvez pelo cabelo claro e olhos mais claros ainda que não eram comuns em sua época. Ainda menina, foi levada por um homem rico e importante da corte e mantida em cárcere como sua amante. Quando conseguiu fugir, retornou a cidade de Araxá, mas foi marginalizada pela sociedade. Já causava inveja nas mulheres por sua beleza, que viram o seqüestro de maneira inversa, como se fosse ela a culpada de seduzir um homem mais velho e viver com ele de forma profana. A Marquesa rebelou-se e fez a escolha de vida de não se envolver institucionalmente com homem algum, pelo contrário; seria uma amante livre -- dizem as más línguas que tornou-se de fato prostituta, profissão que a fez enriquecer.
Um dia, deu em sua casa uma grande festa, e convidou todos os habitantes de Araxá. Os homens da cidade compareceram, mas a grande maioria das mulheres não. No meio da festa, um lacaio trouxe uma caixa, um presente, enviado pelas mulheres ausentes. A Marquesa abriu o presente, em meio aos muitos convidados, e o choque foi geral: a caixa estava cheia de bosta de cavalo, uma atitude pensada para denegri-la e feri-la em sua própria casa.
No dia seguinte, a Marquesa mandou entregar também uma caixa à casa da mulher que havia enviado o lacaio. Dizem inclusive que as mulheres da cidade estavam ali reunidas para rir do escândalo que haviam feito. Quando o mesmo lacaio entrou no salão carregando a caixa e a entregou a patroa, esta abriu. Era um maravilhoso buquê de flores, colhidas especialmente. Junto, um bilhete, de punho da própria Marquesa, que dizia: "A gente dá o que tem".